... & Luciano
Para brilhar
Muita coisa meu pai me ensinou, mas duas lições marcaram minha infância e me servem de exemplo até hoje.
Nossa família é grande, mas, quando éramos pequenos, morávamos numa casa bem pequena. O dinheiro era pouco, a luta grande e a sabedoria do velho Chico maior ainda. Meu pai, na sua brilhante maneira de nos educar, usava o verbo dividir para tudo. Dizia ele: “Quem sabe dividir sabe multiplicar. Jesus multiplicou os pães para dividir entre os irmãos”.
Em dias difíceis, com pouca comida, em vez de a minha mãe colocar um pouco em cada prato, ele pedia para que comêssemos todos no mesmo prato. Chamava cada um pelo nome, juntava os oito filhos na mesa e falava:
– Vocês vão comer todos juntos no mesmo prato para entender a maior de todas as lições entre os irmãos: a união. Faço isso para que vocês sejam unidos por toda vida.
Detalhe: a garfada era por ordem de nascimento. Assim, a gente aprendia também a conviver com a hierarquia familiar. Assim compartilhamos até hoje. O que o mais velho diz o outro respeita.
Talvez na época eu acreditasse que a comida estava na quantidade certa. O que é isso diante do mais nobre alimento? Daquele que não pode faltar em todas as mesas – o amor?
A segunda lição serviu como meu primeiro ofício. Eu deveria ter uns 8 anos quando decidi que precisava ajudar em casa de alguma forma. Meu pai estava na construção (ele era mestre de obras) e eu fui levar a sua marmita, preparada sempre com muito carinho pela minha mãe, Helena.
Falei com ele que eu precisava trabalhar, mas não sabia o que fazer. Meu irmão Zezé Di Camargo já cantava – eu era (continuo sendo) seu fã número 1. Ele estava no começo dessa difícil arte do mercado fonográfico.
– Pai, quero brilhar como meu irmão.
Foi quando ele soltou uma frase marcante:
– Já sei, Welsinho, o que você pode fazer. Quando retornar para casa, vou te ensinar uma coisa.
À noite, meu pai chegou com um caixote de madeira, me chamou no quintal e, sem falar o que iríamos produzir, começamos juntos a fazer uma caixa de... engraxate! Foi uma grande surpresa. A cada peça serrada, a cada prego batido pelo velho martelo, ele me contava seus “causos”. Depois, tirando de um saquinho pastas, escovas, flanelas e graxa, anunciou:
– Welsinho, aqui está seu material de trabalho. Seu primeiro ofício será o mais nobre de todos: dar brilho aos passos dos outros. Sabe por quê? A gente só aprende a brilhar quando dá luz aos caminhos do próximo.
São essas as brilhantes lições que sigo no meu caminho, dividindo a cena com meu irmão neste palco iluminado que é a vida.
... & Luciano: Os dois irmãos, filhos de Francisco, formam uma das mais famosas duplas sertanejas do país, com mais de 20 milhões de discos vendidos.